Experiências...

Interpretação psicológica acerca do filme "A grande inundação", disponível na Netflix:


No filme, observamos o fim do mundo se dando através de meteoros que caem na terra e causam grandes inundações com chuva incessante e tsunamis. A princípio parece um filme comum com um tema mais comum ainda, mas à medida que assistimos, percebemos que não se trata somente de um filme retratando o fim do mundo, mas sobre uma mãe presa em um labirinto de tentativas de encontrar seu filho. Ao final, tudo se explica, mas é preciso ter paciência e ficar atento, se não podemos perder a beleza que ele traz sobre a experiência que forma vínculo e esse vínculo, rompe barreiras.

O relacionamento humano é de suma importância para seu desenvolvimento, segundo o psicológico Vigotski, o ser humano já nasce social (diferente de Piaget, o qual diz que este torna-se social) e é através da relação com o outro que este toma consciência de si mesmo. Ao nos relacionarmos com o outro e vivenciarmos o mundo com este, formamos a experiência através de um confronto incessante entre intelecto e afeto, com isso os sentidos se aguçam e a consciência se molda mais a cada vivência experienciada que o indivíduo constrói, é uma transformação constante de si por meio do outro, sendo que nós também ocupamos esse lugar do outro. O próprio meio nos "empurra" para a transformação e desenvolvimento.

Ao final da trama, a mãe protagonista põe em prática o que ela mesma havia dito sobre criar emoções através da experiência. Sua experiência com o filho e o vínculo construído, fez com que ela, naquele momento de desafio, tomasse consciência de si mesma, de suas experiências passadas e do próprio presente, compreendendo o "aqui e agora" dela, aguçando e aperfeiçoando a relação afeto e intelecto na medida em que vivia de novo e de novo aquela situação, um belo retrato do que a experiência e a experiência com o outro, principalmente, faz em nós. Relacionando-se com o outro, ela conseguiu avançar e seus sentidos e capacidades foram refinados até que no final, o afeto criado pelo vínculo com a criança e as memórias resgatadas romperam todas as barreiras, levando ela a cumprir sua missão.

A cada nova tentativa ela fazia uma apropriação diferente do meio em que estava (Wallon), embora este fosse o mesmo, o que corrobora com a ideia de que a experiência aperfeiçoa os sentidos e as capacidades que nos são inatas, ou seja, já nascem com a gente, fazendo parte de nosso aparelho cognitivo e afetivo. Cada nova tentativa aperfeiçoava mais e trazia à ela cada vez mais consciência de si e de suas capacidades, refinando estas ao passo em que ela entendia o papel crucial do social e assim somos nós: tentamos diversas vezes e cada tentativa produz uma nova apropriação do meio, esse conjunto de vivências que gera experiências refina capacidades que já estão em nós, mas ainda não conhecemos.


"A experiência não é mais do que uma sucessão de situações a que o sujeito reage." Henri Wallon



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