As mesas...
Inversão na hierarquia das necessidades: uma análise psicológica do vício
No livro "O Jogador", Fiodor Dostoiévski narra a história de um rapaz que foi fisgado e enjaulado por um dos prazeres mais trapaceiros: o jogo.
Aleksei Ivanovich não queria saber de ir à roleta, mas apaixonado pela enteada de seu patrão, Polina Alexandrovna, vê-se impelido a fazer isto quando esta pede que jogue por ela, afinal, não era bem quisto que uma dama adentrasse os salões onde as roletas giravam livremente por horas, fazendo um real virar cem e terminar em zero em questões de segundos. Aleksei, viu-se cada vez mais arraigado e dependente daquele vício que aos poucos tirava-lhe toda a subjetividade.
"Ao entrar – pela primeira vez em minha vida – permaneci algum tempo sem ousar me entregar ao jogo. (…) Meu coração batia forte, confesso, e faltava-me o sangue-frio. (…) Um acontecimento radical interferiria infalivelmente em meu destino. É preciso e assim será. (…) Por que o jogo seria pior do que outras maneiras de ganhar dinheiro, do que o comércio, por exemplo? É verdade que apenas um sujeito em cada cem tem a sorte de ganhar. Mas por que me inquieto com isso?"
Leontiev, um filósofo e psicólogo, estudou sobre as necessidades humanas e compreendeu que há tipos e uma hierarquia em relação a elas, por isso, a necessidade de comer quando se tem fome é maior do que a de assistir a um filme naquele momento, por exemplo. O motivo guia a necessidade (fome), mas é esta quem produz o motivo (ver uma pizza). Zeigarnik, também psicóloga, acrescentou aos estudos de Leontiev uma análise profunda acerca de quando a necessidade se torna patológica, ocorre uma inversão na hierarquia das necessidades do indivíduo, ou seja, aquilo que ele verdadeiramente precisa é posto de lado e isso pode ocorrer por diversos motivos, visto que as necessidades também são produtos do nosso meio cultural, sendo portanto, sociais.
"A incapacidade de atender aos requisitos desenvolvidos por outros ou ao próprio "ideal" desenvolvido produz vivências afetivas." Zeigarnik
Com base nisso, podemos observar claramente: o jogo inverte a hierarquia das necessidades, tornando o apostar e o frenesi do momento a maior necessidade, acima da fome, do sono e das demais necessidades biológicas. Aleksei era capaz de passar todo um dia jogando sem parar sequer para ir ao banheiro. O vício exerce tamanho poder que até o corpo fica condicionado a só necessitar dele a todo instante e a pô-lo em prática por longas horas, o ganhar torna-se algo próximo da sensação de estar satisfeito ao comer.
"Vivo numa angústia contínua. Jogo pouco de cada vez e espero, faço cálculos, fico dias inteiros perto da mesa de jogo, a observar, chego a sonhar com o jogo... no entanto, parece-me que eu endureci, que eu afundei no lodo."
"Experimentava uma espécie de febre, e joguei todo aquele monte de dinheiro no vermelho – quando de chofre, recobrei a consciência! Foi a única vez, durante toda a noite, que o medo me gelou, manifestando-se por um tremor das mãos e dos pés. Senti com horror e tomei consciência instantaneamente do que significaria para mim, naquele instante, perder! Era toda a minha vida que estava em jogo!"
Aleksei Ivanovich teve suas necessidades invadidas e desestruturadas pelo vício, perdeu a si mesmo, se afastando dos amigos, mantendo relações somente com a mesa da roleta, protelando para o dia seguinte a última jogada de todas.
Porém, como há e não há a possibilidade de que ele consiga uma fortuna... Então, é necessário tentar de novo. Ciclo vicioso. O jogo promete o cofre cheio, mas só se você tiver a sorte de encontrar a chave certa entre mil.
Por fim, Leontiev traz que aquilo que eventualmente pode se tornar um vício, não se inicia como um, são pequenas circunstâncias conjuntas. Aleksei só jogava um pouco, primeiro por ser apaixonado por Polina, depois para fazer companhia a uma senhora, não começou como vício, até que ele não conseguiu mais parar de jogar. As ações antivitais não cessam, pelo contrário, dominam o indivíduo e dominaram Aleksei:
"O senhor se tornou insensível, observou ele, não apenas se afastou da vida, de seus próprios interesses, dos interesses da sociedade, de seus deveres de homem e de cidadão, de vossos amigos (pois tem amigos), não apenas se afastou de todo objetivo que não seja ganhar dinheiro, mas se afastou até mesmo de suas lembranças... Lembro-me de você numa época apaixonada e intensa de sua vida, mas estou certo que esqueceu suas melhores lembranças daquele período; seus sonhos, seus desejos cotidianos não vão no momento muito além de par e impar, rouge, noir, os doze números do meio etc." O jogador
Aleksei, exemplificando bem o que Zeigarnik traz, afastou-se também de suas relações sociais, um efeito dessa inversão nas hierarquias. Quem profere a fala acima é alguém próximo de Ivanovich que testemunhou a decadência de seu amigo, este que era alguém tão crítico e sagaz.
Isso mostra que ninguém está imune ao vício, seja ele qual for. Não cabe julgamentos, mas uma interpretação da história de vida do indivíduo.
Sentado àquela mesa de apostas, havia apenas o jogador dissociado do indivíduo. Tudo se resumia a tentar novamente, a pressentimentos que o faziam perder tudo, até que o jogo fosse mais importante do que ele mesmo, até que a agonia de poder ganhar o dominasse por completo e que mesmo estando no estrangeiro e tendo apenas um florim que seria para comprar seu jantar, mesmo assim, a roleta ganhava na hierarquia das necessidades.



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